Ser presidente – grande desafio

Nota prévia: Num Portal que é de Matosinhos, não posso deixar de começar por manifestar o desejo que o Leixões Sport Club (prestes a fazer o seu 109.º aniversário, em 28 de Novembro próximo) consiga ultrapassar as “ondas do mar”, por mais revoltosas que forem e chegue a bom porto, com estabilidade e com o natural talento que sempre conseguiu criar para fornecer o futebol português.

Os clubes, os associados, o movimento associativo são uma escola de vida com valor seguro.

Criam oportunidades desportivas, culturais, recreativas, solidárias, de convívio e de cidadania, onde se fundem amizades e nascem talentos que asseguram futuros.

Em todos os casos há um elemento que marca a diferença, que define e assume a responsabilidade do caminho a seguir: tarefa difícil e ingrata.

Ser Presidente é cada vez mais complexo, mais árduo, obrigando a uma dedicação exclusiva a quem entregam todo o seu tempo e preocupações.

Família e amigos passam a utopia, pois as 24 h nunca são suficientes…Nem o sono permite descanso.

Conseguir formar uma equipa unida, coesa, competente, dedicada e eficiente é umas das grandes e prioritárias tarefas.

Por outro lado, há características ancestrais do nosso país que se sedimentam há anos e que não mudam como deviam.

Já Camões e muitos dos nossos Maiores identificaram aspetos, contradições e particularidades que nos têm prejudicado o desenvolvimento: a inveja, “a cunha”, o hábito de afirmar que se conhece “alguém importante” através de vizinho, familiar, funcionário e ainda o vício (que teima em manter-se, para nosso infortúnio) da valorização do “boato”.

Ainda recentemente um ex-diretor de jornal de referência aprofundou esse lamentável vício que é também apoiado em contínuos e inexplicáveis “big brothers”.

Ser Presidente é sempre complicado porque sujeito a constante “voyeurismo” e invenções por vezes pouco edificantes para quem as cria mas muito prejudiciais para quem é visado.

Tarefa solitária, sempre com alguéns à espera do momento da traiçãozita, a ele cabe a responsabilidade de assumir as decisões observando os “ratos” a abandonar o navio mesmo que seja por chuvisco que confundiram com naufrágio.

Presidente é referência, é líder, é comandante que segue na frente – é exemplo para vitória.

Por isso, mesmo que os interesses clubísticos sejam naturalmente contrários, a convivência dos presidentes dos clubes, incluindo os mais mediáticos, não pode continuar em climas de guerra, antes em discussão profunda, frontal, fundamentada sempre.

Dividindo, alimentando quem pretende instalar ódios que não permitem visão clara, não é caminho que possa ser mantido durante muito tempo.

Há quem beneficie dessas “guerras” e assim se perpetue em poderes para os quais não possui dimensão nem qualidade ou competência, num equilíbrio instável mas muito prejudicial ao desenvolvimento sustentado do nosso país desportivo e não só.

As superestruturas obrigatoriamente devem ter presente os clubes, todos os clubes e, a partir daí, serem capazes de alicerçar um edifício forte, com rumo e estabilidade para que o nosso futebol (o nosso desporto e a nossa vida coletiva) saiba para onde quer ir, como quer ir e com quem tem de ir.

Quem divide, quem separa, quem cria conflitos e desentendimentos (quais muros de Berlim ou de qualquer outro lugar, infelizmente tão falados) só assim se mantém em posições de privilégio, com mordomias e negócios que deveriam ser muito bem escrutinados.

Competição sim, paixão essencial, fervor clubista indispensável. Guerra, ódio, conflitos de risco, nunca!

Recordamos que aos heróis e “deuses” de hoje e dos títulos, sucede-se inevitavelmente o insulto, o desrespeito, a calúnia ridícula, quando não se ganha.

Falta de memória é mal de quem não conhece suficientemente bem o desporto.

Associados e adeptos devem assumir críticas e opiniões, de várias formas, mas tendo como preocupação essencial o futuro do clube.

Grupos de pressão, situações de medo, lutas por poder, “negócios estranhos”, já começam a perder o seu tempo e a causar graves danos que podem ter consequências devastadoras.

Competição e vontade de ganhar sempre mas também diálogo, consenso e organização com liderança.

Uma gestão financeira equilibrada, inteligente e capaz, é imprescindível para evitar riscos de “tragédias anunciadas” e destruição de futuros. Aventuras económicas descuidadas são sempre uma derrota de consequências devastadoras.

Claro que como em tudo na vida, também há maus exemplos.

“Há, em Portugal, um “Código de Ética Desportiva”, elaborado pelo Instituto Português do Desporto e Juventude. Mas quem o lê e o vive?…Não são, decerto, aqueles dirigentes que dircursam, diariamente, verdadeiros monumentos de hipocrisia. A impreparação, o arrivismo, o mórbido clubismo desta gente são o principal obstáculo ao progresso do nosso desporto. Só que eles são incapazes de uma autocrítica, e os que os aplaudem, pacoviamente, também.”

(Manuel Sérgio, A des-moralização do futebol, a página da educação, Profedições, Lda, série II, n.º 207, 2016; 88)

Os Presidentes (os que o sabem ser) têm a palavra.

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Informação sobre o Autor

Aníbal Styliano

Treinador de Futebol

• Professor, licenciado em História • Treinador de futebol nível IV UEFA PRO LICENCE • Ex-jogador profissional, treinador, selecionador • Diretor Pegadógico da AFP • Conselho Consultivo da ANTF • Comissão de Formação da FPF

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