Porque se dopa um atleta?

O Doping continua a ser um tabu no desporto e na sociedade a necessitar de um debate sério e de uma revisão social e até criminal urgente. Mas será de alguma forma compreensível que um atleta se dope? Sim, eu consigo entender as razões que levam o atleta a fazê-lo, que razões são essas que vão para além da “ganância” da vitória. São muitas vezes razões mais mundanas e comuns a si, do que o meu caro leitor poderá algum dia ter pensado.

Quero antes de mais dizer, que o facto de entender, não significa que aceite que o façam, não pactuo com isso e quando no presente texto me refiro a “Atletas”, quero-me referir aos verdadeiros e não aqueles que andam a brincar às vitórias nos fins-de-semana e nas provinhas que enchem esse Portugal de lés-a-lés nos dias de hoje.

Para mim, a palavra atleta tem um enorme significado, hoje parece que diminuído, dada a banalização da palavra, que hoje qualquer praticante recreativo se diz ser.

Do dia para a noite trocam-lhes (a eles atletas) de “ídolos” a “drogados”. Os jornais encontram nestes episódios títulos fáceis, são as raras vezes que o ciclismo faz capa de jornal e assim o ciclismo, de forma errada é conotado a desporto de dopados, são todos iguais julga-se. Não, não são!

O atleta de elite é um humano, é feito da mesma carne e osso que qualquer outro, sente frio, dor, fome e sede e embora muitas vezes não transpareça, tem sentimentos. Aos olhos dos demais, ciclista parece ser feito de outra fibra. Cruzam metas de roupas rasgadas, peles queimadas, rasgadas, dilaceradas e encharcadas em suor e até sangue, caiem e voltam a levantar-se para cruzar metas, não desistem, não são treinados para desistir, não sabem desistir.

E quanto mais se excedem, mais são pressionados a excederem-se e por baixo de tudo isto há que lembrar, está apenas um ser humano.

Não estou a querer com isto amaciar-lhe os sentimentos e criar algum tipo de empatia com o atleta que se dopa, não tenha, porque enquanto treinador não tenho nenhuma.

Hoje muitos dos atletas não são mais que máquinas fazedoras de resultados. São os patrocinadores quem paga os ordenados, os resultados tem de acontecer para justificar o investimento, os treinadores e directores desportivos criam a pressão, afinal é o lugar de todos que está em jogo, são as expectativas criada nos fãs, são os média, é a família que está em casa à espera do nosso melhor da melhor forma, mas cria pressão, porque a estabilidade dela disso depende. A carreira é curta, o atleta é uma peça de desgaste rápido que se não der o que lhe é pedido será rapidamente substituídos por um modelo melhor, mais recente, mais prometedor.

O trabalho é árduo para estar todos os dias ao mais alto nível, treinar, competir, recuperar e dar mais, muito mais, tudo rápido, muito rápido, a cobiça ao lugar que ocupam é muita, tem de ser o melhor deles próprios, o melhor entre os melhores, o melhor de todos algumas vezes.

E os mais fracos (de entre os mais fortes) quebram! Não aguentam a pressão, tem de aguentar, tem de dar um pouco mais e a solução é o caminho do doping, é o caminho para o fim.

Imagine-se a ter de ser todos os dias melhor, o melhor do seu gabinete e se não o for todos os dias, corre o risco de perder o emprego, de perder o que é, perder o que tem, tirar tudo à sua família. É capaz de se colocar nesta posição?

Na minha opinião, atleta que se dopa não tem lugar no desporto, não é bom o suficiente para ter o privilégio de competir, deve ser banido, excluído da modalidade e até da competição, mas o que fez dele um mau atleta, não significa que faça dele um mau cidadão.

No entanto cada caso é um caso, porque nem sempre um positivo significa um dopado, mas os julgamentos sociais são precipitados e sem possibilidade de apelo, ou recurso.

Acredito que o ser humano comum não aguentaria um décimo, um centésimo, ou mesmo uma milésimo da pressão a que um atleta de elite está sujeito.

Acredito na excepcionalidade do atleta, capazes de feitos que ecoam na sociedade fazendo desta melhor, mais capaz, mas, deuses também caiem do Olimpo. Não querendo desculpar, não nos precipitemos a julgar sem saber, sem conhecer. Perdido o atleta, continuamos a ter o ser humano.

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Informação sobre o Autor

Pedro Silva

Treinador Profissional de Ciclismo/BTT

• Treinador profissional de Ciclismo/BTT • Administrador do site “Projetopedal”

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