Para os pais dos jovens atletas

As medalhas continuam a ser uma psicose nacional, uma verdadeira e prejudicial obsessão: Não importa como, desde que se consigam obter.

De preferência por geração espontânea e sem grande esforço.

Vivemos uma época em que proliferam também comendas e “honoris causa”, como fazem os mais pequenos quando trocam cromos ou pokémons.

Exageram-se interesses (mesmo que mesquinhos) e subvalorizam-se princípios essenciais: convívio, amizade, equipa, cooperação, responsabilidade e desportivismo.

Ao esforço, dedicação, talento e empenho, sucedem-se, em muitos casos e por pressões exageradas de familiares, o abandono, as desilusões, as dificuldades, os problemas, a tristeza.

Há dias, o presidente de um clube de futebol relatou-me um acontecimento inacreditável: num jogo de iniciados, após a substituição de um jogador, os respetivos pais dos dois atletas (do que saiu e do que entrou) envolveram-se em insultos, acusações ao treinador e em agressões.

Desde as idades mais baixas que se assistem a episódios que nunca deveriam acontecer.

Os jovens aprendem em ritmos diferentes. Por isso, a importância de formação de treinadores dever ser cada vez mais exigente.

Não é o treinador que os pode obrigar a jogar como “ele quer” mas como é mais adequado para os jovens atletas que treina.

Lamentamos também ver treinadores que desperdiçam tempo, material, atenção dos jovens, enquanto falam demais, impondo exercícios de uma revista qualquer, esquecendo-se que os jovens estão muito tempo parados, sem tocar a bola, sem se relacionarem em “jogo”.

Incrível, mas ainda se podem observar treinos onde o tempo útil na tarefa/jogo e de contactos com a bola são extremamente diminutos, quando devem ser prioridades.

Pais a pressionar, a dar indicações para os filhos no campo, treinadores que “exigem” que joguem como não treinam, pode ser uma mistura explosiva.

As intervenções (insultos diversos e sistemáticos) envergonham os filhos e podem criar problemas de relacionamento entre os próprios jovens.

Os pais dos jovens futebolistas, que continuam a inquietar de forma contínua os filhos, nunca os podem encarar como hipótese de bilhete premiado de lotaria, chave vencedora de euro milhões ou mesmo raspadinha valiosa.

Com a ânsia de voar, de atingir o esplendor da vaidade, continuam a destruir sonhos, talentos, vontades, liberdade e ritmos, esquecendo que os jovens têm o direito de procurar ser felizes, criativos nos desempenhos e de serem simplesmente crianças.

Por ouro lado, aos pais que tanto querem ser campeões, que tanto se querem destacar, repito uma sugestão que fiz diversas vezes, como alternativa à pressão exagerada sobre os seus filhos:

– Escolham uma modalidade que gostem (se a praticarem, melhor). Imaginem os títulos que gostavam de obter. Vão a uma loja de medalhas e, por preço reduzido, encomendem medalhas e troféus com a gravação do seu respetivo nome e das provas/títulos que mais apreciam.

De facto, um dia, o pai de um jovem atleta surpreendeu-me totalmente ao afirmar em público que possuía um conjunto de taças e de medalhas sobre títulos nacionais e internacionais de bilhar, inventados por si, com o seu nome, para seu bel-prazer.

Medalhas reais mas sem correspondência alguma com as legendas, pois pertencem unicamente a um mundo de sonho, imaginário e fantástico, porque pessoal e exclusivamente para deleite próprio.

Fiquei espantado: achei a solução do mundo imaginário, uma ideia curiosa, quase inacreditável, simplesmente ingénua e sem causar prejuízo algum.

Reforço que não se tratou de sintoma de mitomania mas de “criar um tempo próprio” de diversão sem causar prejuízos a ninguém. Uma brincadeira criativa, como mais um entretenimento do mundo virtual.

O mais importante é não esquecer que os jovens merecem sempre a nossa melhor e mais qualificada atenção.

“1. A escolha dos desportos a praticar pelos filhos deverá ser da sua responsabilidade e iniciativa sem qualquer imposição por parte dos pais.

(…)

  1. É dever dos pais acompanhar com discrição as atividades dos filhos, procurando corresponder em tempo aos seus pedidos de ajuda, de forma a garantir-lhes uma relação saudável com o desporto.

(…)

  1. É dever dos pais esclarecer os filhos que para serem bons desportistas, para se sentirem felizes e estarem de bem consigo próprios, não é necessário serem campeões.

(…)

  1. Os pais deverão querer rever-se diariamente nos olhos dos filhos e reencontrar o seu sorriso juvenil.”

(in “Carta dos Deveres dos Pais no Desporto”, Plano Nacional de Ética Desportiva, IPDJ, 2017, adaptado)

Gostar de jogar, de colaborar em equipa, de cumprir as tarefas com espírito desportivo, são sempre os maiores títulos a conseguir porque possibilitam um crescimento sustentado.

Outros Artigos de Opinião

Partilhar Este Artigo

Informação sobre o Autor

Aníbal Styliano

Treinador de Futebol

• Professor, licenciado em História • Treinador de futebol nível IV UEFA PRO LICENCE • Ex-jogador profissional, treinador, selecionador • Diretor Pegadógico da AFP • Conselho Consultivo da ANTF • Comissão de Formação da FPF

Recebe Conteúdos Exclusivos

Subscreve a nossa newsletter e mantém-te informado(a) sobre o desporto no nosso concelho.