Ciclismo: moda ou vício?

Sempre que estou com um praticante nas minhas consultas de biomecânica, lá faço a pergunta da praxe para desbloquear a conversa: “Então, há quanto tempo andas no vício?” – e a partir dai está dado o tiro de partida para uma conversa fluida q.b.

A pergunta é bem entendida, lá sai um sorriso sincero, os olhos encolhem e lá vem uma explicação, está destravada a língua e começam a contar o tempo para trás, meses, anos e apenas um pequeno punhado deles chega às décadas, como eu.

Logo de seguida vem a estória que justifica esta entrada na modalidade, por norma foi um desafio de um amigo, uma teimosia um dia, uma experiencia que se julgava única e ficou a vontade de repetir, uma e outra vez e quando se deu conta, já fazia parte da rotina e na rotina não se mexe quando se está bem. Porque há rotinas que existem, para quebrar a rotina.

Talvez porque isto de pedalar chamou muita gente nos últimos anos, que chamou a atenção de outros tantos que pouco ainda percebem e confundem um vício com uma moda. Aos olhos dos mais distraídos, os ciclistas multiplicaram-se nos últimos anos como se de uma praga de coelhos se tratasse, não podemos ir a lado nenhum que esbarramos com ciclistas em passeios, estradas, trilhos, shoppings e quando entramos em casa do mais conservador dos amigos, lá está, um objecto qualquer esquecido a um canto, que o denuncia como viciado. Mais um que experimentou e se rendeu ao vício, parece não haver muito como escapar depois de experimentar.

Uma moda é algo passageiro, chega, afirma-se e convence superficialmente, em menos de nada desaparece com a mesma voracidade com que apareceu e é esquecido durante décadas, até que alguém se lembre de ressuscitar o dito “estilo”. Já um vício é algo sério! Algo preocupante! Muda, transforma, fá-las fazer coisas que elas próprias em tempos se diriam incapazes, censuravam outros até! O vício apodera-se do corpo e depois da mente. E há os bons, fáceis até de largar, mas depois há os maus, aqueles que se enraízam, que tomam conta do corpo e que influenciam o humor, o sentimento, o funcionamento biológico do corpo de tal maneira, que se torna doloroso física e psicologicamente abandonar o hábito, o vício.

Já conheci tabagistas que a muito custo, muito mesmo, largaram o vício da nicotina ao fim de décadas. Mas, ainda não conheci um único ciclista que tenha largado o vício por força menor que não a própria morte.

Se calhar e se ainda não tem isto no corpo, o melhor mesmo é ponderar antes de se dar à tentação, pois como já dizia a minha avó “o problema é experimentar, depois está tudo perdido!”

No fundo o ciclismo talvez seja apenas, o vício da moda. Experimente lá e depois diga-me algo.

Boas pedaladas.

Outros Artigos de Opinião

Partilhar Este Artigo

Informação sobre o Autor

Pedro Silva

Treinador Profissional de Ciclismo/BTT

• Treinador profissional de Ciclismo/BTT • Administrador do site “Projetopedal”

Recebe Conteúdos Exclusivos

Subscreve a nossa newsletter e mantém-te informado(a) sobre o desporto no nosso concelho.